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Há 65 anos o noivo e a noiva chegavam juntos na cabine de um caminhão para o casamento

Há 65 anos o noivo e a noiva chegavam juntos na cabine de um caminhão para o casamento
Gabriela Recco

Ele caminhava três quilômetros para ir namorar, sempre aos domingos. O trajeto na época entre as comunidades de Linha Torrens, em Morro da Fumaça, e Linha Anta, em Içara, era de muita mata e escuridão. E mesmo assim o amor por aquela “menina da perna grossa”, fez com que valesse cada passo. “Era tudo capoeira, mato. Eu pegava uma linha reta pelos fundos do terreno e ia”, conta seu João Sartor.

Ele e dona Rosália Tibimkoski Sartor trazem do passado, além das histórias de um namoro, a jovialidade na alma. No último dia 29 de setembro, eles completaram 65 anos de casados e contaram um pouco dessa história de amor com muitas risadas e descontração ao Morro da Fumaça Notícias.

O casamento

No dia do casamento, eles quebram um grande mito contado durante muitos anos: que o noivo não pode ver a noiva antes da cerimônia de casamento. “Isso é bobagem. Se fosse assim não estávamos juntos todos esses anos. Nunca brigamos”, explica seu João. “Nós dois fomos juntos para o casamento na cabine do caminhão do Santo Bif e os convidados na carroceria. Descemos juntos e já entramos na igreja”, lembra dona Rosália.

O casamento aconteceu no fim de setembro de 1956, na Igreja de São Donato, em Içara. Começou de manhã com a cerimônia, depois almoço, jantar e café servido à meia noite. A festa foi no salão de um tio da noiva, na Linha Batista.

Depois da cerimônia religiosa, uma das testemunhas tinha um carro e levou os noivos para Criciúma bater as fotos. “Fomos no Zapellini. Fizemos uma meia dúzia de fotos e voltamos para a festa. Não é que nem hoje que fazem todas essas poses”, conta Rosália.

Uma recordação do dia do casamento foi uma música que marcou para sempre a vida do casal. “Era uma valsa linda e gostosa de dançar: ‘Velhas Cartas’, conta ela arriscando até uns versos da melodia.

Primeiro olhar

Seu João viu pela primeira vez a dona Rosália na sua residência, durante um velório da irmã dela. “Eu parei na calçada da casa, quando vi ela saindo da cozinha com um balde e fui acompanhando com o olhar até no poço d’água que ficava na frente. Ela tinha 12 anos e eu nunca mais esqueci dela”.

Dona Rosália, no entanto, nem reparou nele neste dia. “Eu era uma menina, mas quase mocinha já. Ele me conta que disse: mas essa perninha grossa, eu não vou deixar escapar”, relembra ela com um sorriso e uma troca de olhar com o marido.

Quando ela já estava com seus 14 anos, eles começaram a namorar. “Foi um namorico. Depois ele foi atrás de outras e ficamos um tempinho afastados”, descreve ela.

“Eu arrumei uma polaquinha, achei ela tão bonitinha. E comecei a frequentar a casa dela. Daqui a pouco dei uma enjoada da guria que não podia nem ver. E para deixar, daí?! Fui embora para o Paraná. Ela mandava cartas com fotos, eu não respondi nenhuma. Namorei com muitas meninas, mas a Rosália estava sempre no primeiro olhar”.

A volta do namoro

O namoro de João e Rosália reatou depois que ele retornou do Paraná. “Tinha uma domingueira na casa de um tio meu, e ele veio com outra. O irmão dele veio dançar comigo e disse: ele (o João) veio hoje com aquela moça porque ela o alcançou na estrada e vieram juntos. Mas só isso”, coloca.

Mas foi durante uma festa de casamento que os dois reataram para nunca mais de deixarem. “Dançamos a tarde toda e a noite inteira. Saímos do casamento domingo de manhã”, relembra ele. Eles então namoraram três anos e depois se casaram. Seu João foi o primeiro e único na vida dela. “Namorar naquela época é bem diferente de hoje em dia”, enfatiza João. Só depois de dois anos de namoro é que veio o primeiro beijo do casal. “Não podia nem pegar na mão, porque se alguém visse, era bronca”, diz ela.

Mas o primeiro beijo aconteceu na hora de uma despedida. “Foi meio escondidinho quando eu já estava de saída da casa dela”, relembra João. Rosália conta que namorava na sala. “Mas também dava 20h30min ele já tinha que ir embora”. “Depois de um tempo deu uma confusão que quase nos deixamos. Nos desencontramos nas estradas por causa de um recado que não foi dado para ela. Fiquei um mês sem ir a casa dela de bravo”.

Segredo do casamento

“A gente tem que se aturar. A gente discute coisas pequenas e bobas, mas nunca nos ofendemos. É uma coisa passageira”, ensina João. “O casamento é união, respeito. Temos que respeitar um ao outro”, completa ela.

Em nenhum momento falaram nas dificuldades e tristezas durante essas décadas. O casal tem uma sintonia de almas. Depois de um ano de casados veio o primeiro filho dos cinco filhos Nilso, Nilza, Nilce, Neuza e Nega.

Questionados sobre qual conselho dão para os mais novos hoje dia sobre casamento eles são enfáticos: “A gente nem dá conselho, porque eles não aceitam. Eles não admitem que era assim antigamente. Hoje em dia se casam e se deixam no outro dia com facilidade, por causa de qualquer briga”, enfatiza Rosália.

Bodas

João Sartor e Rosália Tibimkoski Sartor festejaram 65 anos de casamento neste domingo (3) com uma missa celebrada pelo Padre Itamar Mazzuco na Capela Nossa Senhora do Carmo, em Linha Torrens. Logo após houve um almoço festivo com os familiares em sua residência também na mesma comunidade.

Há mais de seis décadas juntos, o casal, ele com 90 anos e ela com 83 anos de idade, renovou os votos de casamento nas Bodas de Ferro ou Safira Azul, na presença dos cincos filhos, 10 netos e oito bisnetos.

“O sentimento deste momento é ver a família reunida, sem brigas. Já somos 40 pessoas na nossa família. A gente sabe que é mais fácil chegar a 90 anos de idade do que 65 anos de casados. É difícil encontrar casal assim”, finaliza Seu João ao lado da esposa Dona Rosália.

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