ASSESSORIA UNESC
Início do ciclo letivo projeta expansão acadêmica, diversidade regional e fortalecimento do modelo comunitário.
O sotaque de Gisele Costa atravessa o campus como síntese de um país plural que encontra abrigo na Unesc. Acadêmica de Fisioterapia, natural de Belém do Pará e filha de pai descendente indígena, ela viajou mais de 3,7 mil quilômetros até o Sul catarinense em 2017 em busca de um novo horizonte formativo. Conheceu a Universidade Comunitária da região quase por acaso, ao acompanhar uma amiga no curso de Psicologia. Durante o acolhimento, ouviu falar do Programa de Equidade Racial. “Achei que estava muito distante, e agora estou na quinta fase e muito feliz”, afirma.
A volta às aulas nesta segunda-feira (23/2) reúne vozes do Norte, do Nordeste, do interior catarinense e da própria cidade, compondo um mosaico acadêmico que converte diferenças em potência formativa.
Vitor Saccon também representa esse encontro de geografias. Natural de Criciúma, viveu 15 anos em Fortaleza, capital do Ceará, no Nordeste brasileiro, onde iniciou a graduação. A experiência não correspondeu às expectativas e ele decidiu retornar. “Estou na Unesc há dois anos e amando a minha decisão. Sempre fui muito bem recebido aqui e os projetos de Extensão nos inserem no mundo do trabalho”, relata o estudante de Odontologia, cujo sotaque nordestino convive com o falar sulista e delineia uma identidade plural que reflete o próprio desenho institucional.
Natural do interior do Amazonas, Liliane Fernandes amplia essa diversidade. Integrante do povo indígena Apurinã, nasceu em Lábrea, última cidade da Transamazônica, a cinco dias de barco da capital Manaus. A bisavó viveu com um grilhão na perna, memória que atravessa gerações. “Minha escolha pela Unesc aconteceu antes mesmo da bolsa. Já ouvia falar da Universidade há 13 anos, quando vim morar aqui”, conta.
Hoje, ela ingressa pela política de Equidade Racial e encontra no campus um espaço onde identidade indígena e formação acadêmica dialogam sem antagonismo.
Universidade como território de convergência social
Na Unesc, a pluralidade não surge como discurso institucional isolado, mas como prática cotidiana. A reitora em exercício, Gisele Silveira Coelho Lopes, sustenta que o estudante ocupa a centralidade do projeto educacional. “Ele tem espaço para conversar conosco na gestão superior. Somos parte de uma Instituição amplamente democrática, pautada pelo diálogo. A Universidade Comunitária pertence à sociedade e deve permanecer aberta às múltiplas vozes que a constituem”, enfatiza.
O ciclo letivo de 2026 inaugura um novo patamar institucional ao convocar a comunidade acadêmica à corresponsabilidade, à cultura de paz e à qualificação das relações no espaço universitário. “As novas tecnologias estão mudando as relações humanas. O ser humano, na centralidade do processo, precisa refletir sobre o lugar que ocupa nesse contexto. A proposta exige reaprendizado de convivência, sobretudo após o distanciamento social imposto pela pandemia”, cita.
A reitora licenciada e atual secretária de Estado da Educação, Luciane Bisognin Ceretta, dimensiona a expansão institucional como construção coletiva. “Em 2017, quando assumi a gestão, não tínhamos oito mil estudantes. Em 2019 chegamos a 10 mil. Hoje alcançamos 19 mil acadêmicos. É uma trajetória construída ao lado de muitas pessoas. Cada matrícula representa não apenas um número, mas um projeto de vida que se entrelaça ao desenvolvimento regional”, ressalta.
Os indicadores traduzem a capilaridade desse modelo. Somente em 2025, a área da Saúde realizou 252 mil atendimentos gratuitos, enquanto as Clínicas de Direito Humano ultrapassaram sete mil acolhimentos jurídicos. A formação continuada de professores da educação básica alcançou 256 horas de capacitação, evidenciando a inserção territorial da Universidade.
Equidade, território e pluralidade
Acadêmico de Direito, Antoniel Costa ingressou no ensino superior por meio do Uniedu e optou por permanecer no programa mesmo após o surgimento do Universidade Gratuita, permitindo que outras pessoas fossem beneficiadas. No seu caso, a grande diferença está no acolhimento do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Indígenas e de Minorias (Neabi). “Quando entrei, fui abraçado. A equidade se materializa no campus. O ingresso facilitado de negros, indígenas e pardos amplia a representatividade”, afirma.
A pró-reitora de Ensino, Graziela Giacomazzo enfatiza que o momento reafirma a dinâmica institucional ao sustentar que a Graduação Multi integra um projeto pedagógico estruturado em permanente qualificação. “A cada semestre buscamos elevar o padrão formativo. O número de mestres, doutores e pesquisadores cresce; ampliamos laboratórios; estruturamos currículos voltados à experiência teórica e prática. Nossos estudantes mantêm contato com problemas reais desde o início da trajetória. Isso faz diferença concreta. O projeto de graduação se consolida a cada ciclo”, reforça.
O protagonismo se manifesta, ainda, em trajetórias individuais que simbolizam a mobilidade social. Acadêmica de Direito e bolsista do Programa Universidade Gratuita, Giovana Rezende ingressou em 2024, vinda do interior de Nova Veneza, após concluir o Ensino Médio em escola pública. “Sempre quis estudar na Unesc. Desde as visitas que fiz, sentia pertencimento e acolhimento”, relata.
Ela atribui ao programa a viabilização concreta da permanência acadêmica. “Sou a última filha da minha mãe. Meu pai faleceu quando eu tinha oito anos de idade. Em casa sempre se falava do esforço para que eu cursasse uma faculdade e o Universidade Gratuita tornou isso possível”, lembra Giovana, que recentemente assumiu a presidência do Centro Acadêmico (CA), do curso.
A representação estudantil também integra esse tecido institucional. A presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Camila Jacoby, destaca a abertura ao diálogo. “As portas da reitoria estão sempre abertas para nós. É por meio do diálogo que conseguimos colocar projetos em prática e melhorar a vida dos estudantes”, declara.
Pesquisa e protagonismo estudantil
No campo científico, a Pesquisa dimensiona o alcance da formação, como o exemplo de Camila da Costa, acadêmica de Fisioterapia, que atua há quatro anos na iniciação científica e encontrou no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) o aprofundamento desejado. “Tive a oportunidade de compreender melhor o processo de pesquisa e isso despertou em mim a vontade de seguir para o mestrado”, relata.
Ela acompanha projetos de Mestrado e Doutorado, com ênfase em patologias que aceleram a recuperação tecidual e em uma linha emergente voltada ao reparo de lesões pulmonares, sobretudo no contexto de UTI. “A pesquisa nos coloca diante de desafios reais da saúde e amplia nossa responsabilidade com a sociedade”, afirma.
“Na Pesquisa, o avanço conta com investimentos próprios e com apoio de agências como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). As pesquisas alcançam reconhecimento nacional e internacional, o que consolida o patamar científico da Instituição”, relata a diretora de Pesquisa, Sabrina Arcaro.